Em diálogos com psicólogos e alunos do curso de psicologia pude perceber uma forte inclinação para o ecletismo teórico e técnico. Em alguns momentos esse cenário pode parecer favorável ao desenvolvimento da psicologia, mas de fato não é. Essa é uma pratica perigosa, infeliz e equivocada que deve ser evitada a todo custo.

Parece-me que pressões conceituais, metodológicas e praticas além da ausência de conhecimento e domínio teórico estão forçando os profissionais a enfrentarem a árdua tarefa de lidar e explicar fenômenos psicológicos de modo incompatível com suas abordagens.

Eu mesmo certa vez tive uma divergência teórica com uma professora acerca deste tema na qual ela explicava que os alunos poderiam nas praticas usar técnicas de diferentes linhas, mas a essa não é uma atividade assertiva porque as visões de mundo, concepções de homem e as técnicas são muitas vezes incompatíveis no cerne das abordagens.

A dificuldade em encontrar dentro de sua escola respostas para lidar com esses fenômenos psicológicos conotam falta de conhecimento e aceitação de que sua escola não é minimamente suficiente para manejar boa parte do material clinico demandado pelos clientes.

A escola escolhida pelo profissional para atuação deve ser capaz de responder as demandas que surgir no ambiente clinico a qualquer momento, se isso não ocorre é pura e simplesmente por dois motivos, ou a abordagem é falha e inconsistente ou o profissional não a domina plenamente.

Basta observar o que é ensinado nos cursos de Psicologia para facilmente perceber que o aluno não é preparado para dominar sua abordagem no momento da análise.

Diversas vezes ouvi relatos de estagiários que dizem se sentir inseguros, ansiosos ou confusos na pratica clinica supervisionada, restando ao supervisor tentar adivinhar o que se passa com o cliente.

O ecletismo teórico representa um comportamento que afasta o terapeuta do seu papel mais genuíno que é trazer para a situação clínica a proposta conceitual de sua abordagem.

Segundo Guilhard (1982) Uma proposta teórica só pode ser criticada e desenvolvida a partir de seu próprio referencial, isto é, uma abordagem só pode crescer e se rever com o engajamento, por parte de seus adeptos, na pesquisa e na reflexão crítica sobre seus conceitos.

Segundo Branch (1987) o ecletismo (teórico) pode parecer sedutor, parecer mesmo um exemplo de ‘mente aberta’, mas é inócuo. O desenvolvimento e a compreensão de uma posição teórica é uma tarefa árdua, mas é exatamente esse esforço que leva ao avanço científico (e, portanto, tecnológico). Ter uma visão unificada promove consistência por parte do terapeuta e permite teste e refinamento (ou até mesmo abandono) de sua visão com a progressiva experiência. Assumir “uma posição teórica faz com que o terapeuta se torne um participante pleno da empreitada a que chamamos ciência” (Branch, 1987,pp. 79 e 80).

Podemos concluir que a única possibilidade para atuação profissional que se escuse a eminente necessidade de ecletismo teórico é a dedicação e empenho por parte do profissional, além de investigação cientifica da demanda proposta pelo cliente.

Deve estar claro que o ecletismo, além de ser uma pratica perigosa é também equivocada e infeliz. O ecletismo teórico nada mais é que assinar o atestado profissional de incompetência e a certidão de óbito da escola psicologia que serve como referencial teórico.

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