Analise descritiva da obra O LUGAR DO SENTIMENTO NA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO de Skinner, feito por Harley Pacheco de Sousa, estudante de psicologia da universidade São Marcos.

Não se imagina que os behavioristas tenham sentimentos ou que admitam possuí-los, porém esse é um erro de interpretação e talvez esse seja o mais comum.

Behavioristas metodológicos, assim como positivistas lógicos, argumentam que a ciência deve restringir-se a eventos passíveis de serem observados por duas ou mais pessoas e a verdade tem que ser verdade pela concordância, logo, aquilo que é visto através da introspecção não se qualifica como tal. Mas é fato que existe um mundo privado de sentimentos e estados da mente que está fora do alcance de uma segunda pessoa, portanto, da ciência.

Certamente, essa não é uma posição satisfatória, pois as maneiras como as pessoas se sentem é tão importante quanto o que elas fazem. O behaviorismo radical nunca assumiu essa posição, pois acreditamos que sentimento é um tipo de ação sensorial, assim como ver e ouvir. Em outras palavras, dispomos de outras formas de saber o que estamos sentindo, o que sentimos são condições corporais.

No entanto, podemos por nós próprios de dois modos saber o que estamos sentindo, por exemplo, respondemos a estímulos gerados por nossas articulações e músculos de uma maneira, quando andamos de lá para cá ou quando dizemos que nos sentimos relaxados ou mancamos.

As respostas verbais nesses exemplos acima são os produtos de contingências especiais de reforçamento, a privacidade que sugere que temos que conhecer especialmente bem nossos próprios corpos, é uma severa limitação para os que devem nos ensinar a conhecê-los.

Pois não podemos apresentar ou apontar uma dor, por exemplo. Ao contrário, inferimos a presença da dor a partir de algum acompanhamento público. Uma vez que eventos públicos e privados raras vezes coincidem exatamente, palavras que designam sentimentos não são ensinadas com tanto sucesso quanto palavras que designam objetos. Talvez, seja por essa razão que filósofos e psicólogos raramente concordam quando falam sobre sentimentos e estados da mente e porque não existe uma ciência do sentimento aceitável.

Por isso afirmamos com assertividade que o que é sentido não é uma causa inicial ou iniciadora. É fácil confundir o que sentimos como uma causa, porque nós o sentimos enquanto estamos nos comportando (ou mesmo antes de nos comportarmos), mas os eventos que são de fato responsáveis pelo que fazemos (e, portanto, pelo que sentimos) encontram-se num passado possivelmente distante e a análise experimental do comportamento favorece a nossa compreensão dos sentimentos por esclarecer os papéis dos ambientes passado e presente.

Exemplo: Eu não choro porque estou triste é a sacada, mas eu choro mais porque alguma coisa aconteceu. Veja eu não estou triste porque me comporto, mas eu me comporto e fico triste.

Um crítico disse que, para um behaviorista, “Eu o amo” significa “Você me reforça”. Bons comportamentalistas diriam: “Você reforça meu comportamento”, e não “Você me reforça”, porque é o comportamento, não a pessoa que se comporta que é reforçado, no sentido de ser fortalecido;

Descrevemos o efeito privado de um reforçador quando dizemos que ele “nos dá prazer” ou “faz com que nos sintamos bem” e, nesse sentido, estados corporais muito diferentes são gerados por estímulos aversivos e são sentidos de diferentes maneiras.

A citação é indicativa de que a condição sentida como ansiedade começa a funcionar como um segundo estímulo aversivo condicionado. A ansiedade torna-se, então, auto-perpetuadora e mesmo auto-intensificadora.

A ansiedade, talvez, seja uma espécie de medo (nós diríamos que o rato estava “com medo de que ocorresse outro choque”), mas isso é diferente de estar “com medo de pressionar a barra” porque o choque ocorreria. A diferença entre as contingências é inconfundível.

Em geral, quanto mais sutil o estado sentido, maior é a vantagem de voltar-se para as contingências. Esse tipo de análise tem um significado importante para duas questões práticas: quantos podem chegar, a saber, sobre o que outra pessoa está sentindo e como o que é sentido pode ser mudado? Não é suficiente perguntar a outra pessoa o que ela está sentindo, nem como está sentindo, porque as palavras que ela usará para responder foram adquiridas, como se sabe, de pessoas que não sabiam exatamente sobre o que estavam falando.

A mesma coisa deve ter acontecido quanto ao primeiro uso de palavras para descrever estados privados. Todas as palavras usadas para designar sentimentos começaram como metáforas, e é significativo que a transferência sempre tenha sido do público para o privado.

Não precisamos usar os nomes dos sentimentos se podemos ir diretamente aos eventos públicos. Ao invés de dizer: “Eu estava com raiva”, nós podemos dizer: “Eu teria batido nele”.

Outro modo de relatar o que sentimos é descrever uma situação capaz de gerar a condição sentida, fica claro que conhecemos o que outra pessoa sente somente quando nos comportamos como ela, quando falamos que conhecemos o que os membros de outras espécies sentem.

Quando queremos mudar sentimentos é mais importante enfatizar o que é sentido do que o sentimento. Os sentimentos são mais facilmente mudados alterando os contextos responsáveis pelo que é sentido. Quando o ambiente não pode ser mudado, uma nova história de reforçamento pode alterar seu efeito.

A psicanálise tem uma grande preocupação com a descoberta e a alteração de sentimentos. A análise, às vezes, parece funcionar por extinguir os efeitos de velhas punições. Quando o paciente descobre que o comportamento obsceno, blasfemo ou agressivo é tolerado, o terapeuta emerge como uma audiência não-punitiva. O comportamento “reprimido” por punições anteriores começa, então, a aparecer. “Torna-se consciente”, simplesmente no sentido de que começa a ser sentido. O comportamento outrora ofensivo não é punido, mas também não é reforçado, e eventualmente sobrevém a extinção, um método de erradicação menos perturbador que a punição.

Apenas o comportamento operante pode ser executado em resposta a um conselho, mas se ocorre apenas por essa razão, padece das mesmas deficiências do comportamento imitativo.
Nós apreciamos vários estados de nossos corpos e, porque são positivamente reforçadores, fazemos o que for necessário para produzi-los.

Felizmente, nem tudo o que sentimos é perturbador. Nós apreciamos vários estados de nossos corpos e, porque são positivamente reforçadores, fazemos o que for necessário para produzi-los. Lemos livros e assistimos à televisão e, uma vez que procuramos nos comportar como os personagens, sentimos e possivelmente desfrutamos dos estados corporais relevantes. As drogas são consumidas por causa de efeitos reforçadores positivos (mas, o reforçamento é negativo quando elas são consumidas principalmente para aliviar sintomas de abstinência.). Religiosos místicos cultivam estados corporais especiais, através de jejum, permanecendo imóveis, em silêncio, recitando mantras e assim por diante.

Infelizmente, o que acontece até esse ponto está fora do alcance dos instrumentos e dos métodos do analista do comportamento e precisa ser deixado a cargo do fisiologista. O que resta para o analista são as contingências de reforçamento sob as quais as coisas vêm a ser vistas e as contingências verbais sob as quais vêm a ser descritas. No caso do sentimento, tanto as condições sentidas, quanto o que é feito ao senti-las, deve ser deixado ao fisiologista. O que fica para o analista comportamental são as histórias genéticas e pessoais responsáveis pelas condições corporais que o fisiologista descobrirá.

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