Nos últimos anos os cursos de pós-graduação no Brasil tem se intensificado, entretanto, a qualidade parece não acompanhar o mesmo ritmo. Um projeto deste nível exige qualitativamente autonomia, criatividade e rigor, além da necessidade de sentido político no objeto da pesquisa.

Precisa estar claro que os trabalhos devem ter citações obviamente, mas devemos ressaltar que a citação deve aparecer como um diálogo crítico com autor e entre os autores se atendo para evitar absolutamente o sincretismo epistemológico. Precisamos estar atentos para não misturar posições divergentes. Vemos que muitos trabalhos tem se limitado a reproduzir informações obvias que todos já sabem e que se considera consenso.

Cabe ainda ressaltar a maior diferença entre trabalhos de pós-graduação ampla, mestrado e doutorado. Nos cursos de pós os alunos aprendem a pesquisar, francamente é o momento onde se ‘recauchuta’ a incompetência dos cursos de graduação em desenvolver pesquisadores. No mestrado, embora ainda seja o inicio da formação de pesquisadores, espera-se mais autonomia e originalidade, enquanto que no doutorado se espera completa autonomia, total originalidade e ampla criatividade para solucionar problemas, além do envolvimento político existencial para resolução de problemas que afligem a sociedade. No doutorado espera-se domínio teórico em que não apenas nos apoiamos nas teorias, mas interagimos com ela para solucionar problemas políticos-existenciais em consonância com o momento histórico da sociedade. Não se trata de aprender a se apropriar de conhecimentos, mas de fazer o conhecimento avançar aplicando instrumentos aos objetos e situações.

Originalidade não significa novidade, mas volta às origens, explicitando um esclarecimento original ainda não percebido. Não há lugar para espontaneísmo ou diletantismo, mas lógica e competência, compromisso e disciplina.

No trabalho cientifico temos objetivo de demonstrar dissertativamente um raciocínio lógico mediante argumentação ‘tese’ comprovando aquilo que queremos mostrar por meio de procedimentos coletados por pesquisas ‘dados empíricos’ e reflexões interpretativas.

A tese é um trabalho de maior representatividade cientifica, porque, além de colocar um problema, aponta para a solução demonstrando hipóteses levantadas e convencendo os leitores por meio de argumentação lógica rigorosamente construída e fundada em evidências. A dissertação deve cumprir exigências e é igualmente monográfica, mas não precisa necessariamente apresentar originalidade, pois é um tipo de iniciação cientifica de exercício orientado.

Muitas vezes as dissertações de mestrado e até mesmo teses são reduzidas a levantamento meramente experimental, isso é válido porque possibilitam dados para assuntos pouco estudados, mas na verdade uma dissertação ou tese deve oferecer mais, pois sem reflexões interpretativas não se resolve nada e não se demonstra nada. Não queremos agredir nenhum trabalho especificamente, mas apenas insistir que os trabalhos devem interpretar, argumentar, dissertar e apreciar.

Muitos trabalhos não são dissertações ou teses, mas ensaios. O ensaio é um trabalho formal, discursivo e concludente. No ensaio o autor defende uma posição, mas sem se apoiar rigorosamente em aparatos empíricos e bibliográficos como nas teses.

Encontramos muitos trabalhos de doutorado confundidos com teses, mas que na verdade são ensaios que são bem aceitos pela maturidade intelectual e pelo rigor do autor.

Na tese ou dissertação não falamos de tudo, mas apenas do substancial, quando necessário devemos apenas citar as fontes necessárias para compreensão, mas sem se perder em grande tomadas históricas. Deve existir coerência interna e externa, interna são as lógicas do raciocínio e as externas os elementos textuais.

O processo de orientação é uma questão difícil de expor porque existem diversas visões de como devem ser feitas, entretanto, cabe a nós explicitar que o orientador não é pai ou tutor, também não é carrasco ou chefe de senzala, mas sim um educador que deve transmitir suas experiências de modo a nortear e amadurecer o orientando. O orientador é um interlocutor crítico que exerce autoridade legitima decorrente do próprio processo de orientação.

A realização de um trabalho de monografia é fruto de maturidade intelectual e certo amadurecimento. Existem cursos que se propõem a nos ensinar e que tem objetivo de criar o contexto necessário para essa evolução nos fornecendo instrumentos, mas na realidade há um grande abismo nas disciplinas para que possibilitem esse crescimento esperado. Atualmente os cursos de pós se limitam a preparar o aluno para outro curso de pós-graduação, mas não prepara para a própria pós-graduação. A pós-graduação deveria ser um espaço para troca de ideias, reflexões, experiências e discussões e não apenas encontros quinzenais sem nexo.

Um trabalho é complexo, seria ingenuidade nossa pensar que poderíamos dar toas as diretrizes, entretanto, podemos apresentar algumas coisas que são comuns. Normalmente pede-se a determinação e delimitação do tema que nada mais é que ter bem claro o problema que vai ser estudado, além de se evidenciar seu caráter e suas contradições. Determinar o tema é saber exatamente qual problema será estudado e delimitar o tema é definir qual característica do tem será estudado.

Exige-se a formulação das hipóteses, ou seja, qual é a ideia central do trabalho, o que se propõe demonstrar? Não podemos confundir hipótese com pressuposto. Hipótese é aquilo que vamos demonstrar, já pressuposto é o que já é evidente. Quando ou Marco teórico é o que sustenta seus raciocínios. Cuidado com sincretismo epistemológico, isso derruba qualquer argumentação.

Indicação de procedimentos metodológicos e técnicos nada mais é que anunciar o tipo de pesquisa. metodologia é o tipo de lógica (empírica, documental e etc), método (pesquisa, experimental) é o instrumento e procedimentos (perguntas e etc) são os passo a passo. Essas informações devem estar claras de modo que outra pessoa consiga fazer exatamente o que fizemos e claro de tal modo que alguém que leia aceite participar.

Por fim indique a bibliografia. Geralmente pedem as regras da ABNT, entretanto, ninguém sabe ao certo quais são essas normas, portanto apenas devemos seguir um padrão, ou seja, use apenas um tipo de referencial bibliográfico.

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