Segundo o autor analise ou elaboração de currículo que constitui o conteúdo do curso de psicologia transparece a insatisfação de todos com o que se oferece no decorrer dos 5 anos de curso, creio que essa insatisfação vem de várias naturezas e que para discutir é necessário identificá-las.
A psicologia é organizada em torno de interesses práticos e cognitivos na forma de comunidade e sub-comunidades teóricas e profissionais com seus órgãos de publicação, institutos e congressos anônimos. O ensino universitário único e uniforme está em oposição a realidade desse campo.
É necessário tirar dessa diversidade uma conseqüência obvia, é impossível montar um único currículo que seja equilibrado, fiel a diversidade, justo com as diferentes, alternativas, profundo em cada uma delas, propiciando uma excelente base teórica e também boa oportunidades de exercício pratico nas diferentes orientações, capaz de resgatar historias das diferentes psicologias e ao mesmo tempo atento às inovações teóricas e técnicas, etc. Mesmo que se faça uma seleção, deixando de lado algumas escolas do pensamento psicológico, ainda assim, o que sobrar como relevante e indispensável daria para compor um currículo de no mínimo 10 anos de estudos.
Quando os alunos começam o curso esperam uma harmonia entre as matérias, mas logo percebem que elas sugerem pressupostos diferentes, às vezes a mesma disciplina muda completamente apenas por causa do professor, parece haver certas repetição dentro dos conteúdos porém o que ocorre é que as disciplinas tratam do mesmo assunto e os alunos tem dificuldades para perceber as sutilezas que as diferenciam.
Embora esta seja uma realidade reconhecida por todos nós, ela parece ser esquecida quando nos pomos a pensar num currículo ideal. O currículo ideal não existe, o que são resultados do conflito entre as perspectivas mais ou menos dispares, os currículos são montados por diversas pessoas, coordenadores, professores e às vezes até por alunos, assim fica nítido nesse contexto, um jogo de interesses de várias ordens, isto significa, entretanto, que esse jogo político não deva ser como uma guerra, sem um mínimo de civilidade entre os envolvidos.
O autor faz uso da analogia entre seu ponto de vista e o conceito de mãe suficientemente boa de Winnicott dizendo que a mãe boa é capaz de sustentar o filho até que ele subsista sozinho e depois precisa falhar para o filho começar a se adaptar. Assim sendo, deveríamos renunciar à crença de que um currículo ou que um curso de psicologia tenha como missão satisfazer a todos os desejos, perseguindo uma impossível adaptação completa a necessidades de seus alunos, é claro que antes de deixar a desejar foi preciso atender a algumas necessidades básicas e estas devem ser cuidadosamente consideradas, e para isso é necessário muito investimento e trabalho.
Claro que haverá falhas não consideradas que deverão ser solucionadas na medida do possível, mas o currículo suficientemente bom é aquele que dá subsidio para o aluno subsistir sozinho.
Se bem que um currículo não pretende acompanhar os alunos ou dirigi-los durante a vida toda, mas prepará-lo profissionalmente e exatamente por isso nunca haverá fim.
A lógica do “deixar a desejar” direta ou indiretamente tem o objetivo de fazer o aluno descobrir que aulas, disciplinas e professores não é o suficiente, mas que precisa buscar o que falta. Na psicologia e em todos os cursos universitários há disciplinas que são do tipo holding e outras que são do tipo orientação, uma serve para treinar e outra para orientar qual rumo o aluno deve seguir, formação e treinamento são necessários na preparação do psicólogo, mas claro que se deve haver diferenças significativas nisso, formar não é modelar, formar é oferecer continente matriz para que o aluno possa vir-a-ser como psicólogo.
“Ser psicólogo é saber lidar com ecletismos multidisciplinaridade”
Deve-se saber que mesmo com esses argumentos não há duvidas que estão faltando elementos no eixo formativo, por outro lado teme-se que fique faltando condições para exercícios de algumas habilidades e isso influiria negativamente na formação.
Finalmente, sugiro que tomemos a insatisfação como motora e bussola do processo de preparação profissional. Voltando pelo reverso ao que propus acima, e que para mim é mais do que um paradoxo gozado, concluiria dizendo: “ai da faculdade de psicologia que não consegue deixar seus alunos desejosos de mais psicologia, ou seja, fecundamente insatisfeitos”.

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