Resumo: O presente artigo tem como objetivo construir um esboço sobre a função da psicologia apontando qual seu real interesse desde sua chegada em solo brasileiro até o surgimento da psicologia comunitária nos anos 90. Analisamos diversos teóricos para tentar construir um modo de compreensão sobre as implicações da psicologia na contribuição que esse saber oferece a classe dominante. Em nossa reflexão apontando para quais interesses e interesses de quem a psicologia defendeu. Traçamos uma análise critica que argumenta a psicologia como saber que centra-se em controlar o comportamento humano e imputar-lhe responsabilidade naturalizando questões que legitimem contextos de opressão, exploração e espoliação. Argumentamos que a psicologia não pensa em transformar a sociedade em beneficio da maioria da população, mas estagna seu desenvolvimento nesse sentido e desenvolve-se cada vez mais em sentido cientifico estrito com objetivo de manter o status quo, pois é nessa concepção de desenvolvimento que a mesma tem sua gênese. Defendemos que a psicologia é um saber implantado no Brasil por sua capacidade de ajustamento e que essa percepção dos governos acerca do instrumento cientifico psicológico foi um facilitador em sua difusão em um solo fértil que desejava emergir enquanto autônomo. O presente artigo oferece uma possibilidade argumentativa acerca de como a psicologia é um saber genuinamente policialesco e tendencioso e busca ser um facilitador no processo de reflexão e na descoberta de novas possibilidades práticas, teóricas e epistemológicas acerca do assunto.
Palavras-chave: Psicologia. Exploração, Espoliação. Divisão de classes.

Abstract: This paper aims to build a stub pointing function of psychology which his real interest since his arrival on Brazilian soil until the emergence of community psychology in the 90s. We analyze various theoretical trying to build a way of understanding the implications of psychology’s contribution to this knowledge provides the ruling class. In our reflection argued pointing to what interests and interests of those who defended psychology. We draw a critical analysis argues that psychology as a knowledge focuses on control human behavior and accuse him of naturalizing responsibility issues that legitimize contexts of oppression, exploitation and dispossession. Argue that psychology does not think about changing society for the benefit of the majority population, but its development stagnates and accordingly develops increasingly strict scientific sense in order to maintain the status quo because it is this conception of development that it has its genesis. We argue that psychology is a knowledge deployed in Brazil for their ability to adjust and that this perception of governments about the psychological scientific instrument was a facilitator in their diffusion in a fertile soil that wanted to emerge as a standalone. This article offers a chance argumentative about how psychology is a genuinely know and police-biased and seeks to be a facilitator in the process of reflection and discovery of new possibilities practical, theoretical and epistemological questions about the subject.
Keywords: Psychology. Exploitation, plunder. Class division

A psicologia teve sua emergência em solo europeu, posteriormente foi em solo americano que se logrou e se tornou um saber hegemônico por volta dos anos 30, embora, existam autores argumentando que antes da psicologia ser reconhecida oficialmente como ciência já haviam práticas que atualmente seriam consideradas psicológicas. Furtado (2012) defendeu que na história da psicologia moderna e mais especificamente na psicologia brasileira do período colonial havia um tipo de saber praticado pelos jesuítas que certamente seriam considerados como psicológicos hoje em dia.

Por suas particularidades de difícil materialização e por sua habilidade em individualizar, naturalizar, adaptar e ajustar o indivíduo a psicologia se tornou uma ferramenta de grande interesse para sociedades capitalistas, veritas que foi nos países cujo esse modelo social é vigente que os saberes psicológicos se desenvolveram de modo mais afinco. Schultz (1992) deixa claro quando aponta que a psicologia surgiu primeiramente na Inglaterra, mas desenvolveu-se com força na Alemanha até estabelecer-se nos Estados Unidos da América.

Países europeus colonizaram os novos mundos e difundiram suas culturas de modos assimilacionistas e no Brasil não foi diferente. Esses países sustentavam-se pelas conjunturas de divisão de classes e sob o contexto de exploração e espoliação de outros territórios, por meio dessa prática predatória adquiriam e mantinham além de seus status, também suas riquezas. Ribeiro (1995) ilustra bem esse fenômeno defendendo que embora o povo pudesse ascender na condição de trabalhador, a população brasileira se inseria a novas formas de exploração, certamente melhores que a escravidão, mas que “só lhe permitiam integrar‐se na sociedade e no mundo cultural, que se tornaram seus, na condição de um subproletariado compelido ao exercício de seu antigo papel, que continuava sendo principalmente o de animal de serviço”. (Darcy Ribeiro, 1995, p. 232).

Nesse sentido objetivo deste artigo centra-se em argumentar sobre qual foi o real interesse da psicologia quando penetrou em terras brasileiras, enseja atuar como um facilitador no processo de reflexão para compreender os reais interessado nos saberes psi e fomentar reflexões sobre a quem esses saberes servem. Esse artigo na medida em que argumenta acerca do real interesse da psicologia em terras brasileiras, espera também auxiliar no desenvolvimento de práticas efetivamente mais benéficas as camadas mais pobres da população brasileira e nesse fator encontra sua relevância social. Desejamos fomentar estudos críticos sobre assimilacionismo, sobre o papel da psicologia em terrenos como os brasileiros e no desenvolvimento de trabalhos que culminem no em práticas efetivamente menos opressoras as classes menos privilegiadas.

A fim de cumprir os objetivos fizemos um levantamento bibliográfico de autores que especificamente tratam do assunto a partir de uma perspectiva crítica que foca necessariamente as questões históricas, econômicas e políticas, além de dependência de autonomia ou influência de alguns países europeus na formação da cultura psicológica brasileira.

A formação do povo brasileiro

Ribeiro (1995) argumentou que o Brasil é um pais que nasceu sob árduo regime de exploração, foi palco de batalhas territoriais de diversas etnias europeias que em grande parte almejava explorar as riquezas naturais nativas. Dentro desse cenário surgiu certa divisão tipológica social, a tipologia das classes segundo Ribeiro (ibid) vem de dois corpos conflitantes complementares que são os empresários exploradores donos das riquezas financeiras e do patriciado espoliante, responsáveis pelo desempenho de cargos, sendo que cada um aspirava ser patrão do outro e a partir disso determinavam os destinos alheios. Ribeiro (ibid) defendeu que o povo brasileiro é formado por empresários exploradores, pelo patriciado que exercem os cargos de alto e médio escalão que podem ser nativos ilustres ou estrangeiros e os nativos explorados cujos antepassados são em grande parte africanos, europeus menos afortunados e indígenas, mas predominantemente africanos. Ribeiro (ibid) apontou que havia clara diferença entre esses sujeitos, pois os empresários exploradores vieram para extrair toda riqueza material presente na terra dos paus-brasil, o patriciado espoliante aspirando ser patrões, esses vieram para espoliar e despojar o terreno fértil do novo mundo sob os auspícios dos exploradores exercendo tarefas militares, baixo clero e profissionais liberais e por fim os nativos indígenas e negros explorados escravizados. Ribeiro (ibid) apontou também os imigrantes que assim como os escravos e indígenas foram submetidos a árduas atividades, mas em contrapartida defendeu que esses vieram em busca de novas oportunidades e melhores condições, diferente dos escravizados que de fato tinha como única perspectiva, a exploração.

Nesse sentido podemos nitidamente perceber que o Brasil surgiu engendrado em relações dividas em classes determinadas por antagônicos interesses inerentes a sua produção e nesse contexto a formação do povo brasileiro esteve demasiadamente prejudicada, pois assumia gradativamente a postura de nação alicerçada em valores extrativistas cujo objetivo sumo era permanecer fornecendo subsídios para manter as riquezas da minoria exploradora.

Desenvolveu-se no Brasil a cultura passiva de espoliado e explorado onde aparece como uma veemente marca no povo brasileiro, basta um breve recorte dos períodos históricos da nação que é possível perceber a não mobilidade de um povo física e ideologicamente reprimido. É raro um período na história do povo brasileiro onde não seja possível encontra uma revolta da população que não tenha sido fortemente reprimida pelas classes dominantes. A repressão física é uma ferramenta que gera descontentamento de toda a população durante as revoltas e turbulências, nisso, os saberes científicos chegaram para resolver esse problema e com a ciência chegou atrelada a psicologia.

A Psicologia no Brasil

Quando a psicologia chegou ao Brasil, o país estava diante de uma clara situação de exploração, chegou no momento em que a nação auspiciava sair do regime de espoliação e visava emergir enquanto autônoma e independente, era o momento em que os intelectuais argumentavam que era necessário tonar o Brasil um pais autossustentável. (Massimi 2007 apud Santos et col. 2012). Nesse contexto de opressão, o Brasil nação se formava e segundo os padrões culturais da época, evoluía, via-se notadamente o crescimento das metrópoles, cidades e distritos tanto em população quanto em problemas graves no sentido de insalubridade, sujeira e desigualdades sociais. Esse contexto precisava ser justificado e legitimado por uma sociedade que contraditoriamente defendia a liberdade, igualdade e fraternidade, além dos direitos de mobilidade social proposto pelas ideias iluministas oriundas da Europa, mas que não vivia essas promessas em vias fato. Diante da premente necessidade de legitimar as desigualdades sociais os saberes que eficientemente exerciam essa função separacionista era a teologia, porém, essa foi demasiadamente perdendo a força por conta da evolução cientifica importada para o país, pela medicina, saber genuíno contestado e colocado em cheque por suas teses racistas da década de 30, por isso, importou-se a recém-nascida psicologia europeia e americana que com seus estudos sobre a dinâmica psíquica do sujeito era extremamente a-histórica e individualizante.

Antunes (2012) argumentou que a produção de saberes psi no Brasil está intimamente ligada à expansão comercial capitalista que avançava e que precisava garantir riquezas aos espoliadores europeus. A imensa riqueza nativa era extraída pela presente necessidade de garantir luxo, distinção e opulência à classe dominante brasiliana. Os mais bem ávidos de posses descontentes com o ensino de qualidade que havia no Brasil em todos os períodos históricos, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou nos Estados Unidos e foi assim que a elite brasileira entrou em contato com os saberes psi. Com o retorno dos estudantes a terra das palmeiras, dos lindos campos onde há mais flores trouxe também as ideias europeias iluministas e os saberes científicos e foi assim que a psicologia chegou. Atravessou as barreiras oceânicas por meio da medicina, pois essa era o saber que mais se estudava na Europa e se disseminou no Brasil por meio da educação, Antunes (2012) argumentou que os saberes psicológicos presentes eram estritamente ligados à educação e defendeu que assim como a educação a medicina teve papel importante na difusão do saber psicológico brasileiro.

A educação e a medicina são as disciplinas que melhor podem naturalizar a exploração e a divisão de classes, pois a confiabilidade dedicada há ambas é quase que universalmente incontestável. Ainda na atualidade os saberes implantados pela educação e pela medicina são quase que irrefutáveis, vê-se claramente a influência do modelo médico em todos os cenários ligados a saúde e a validação que as instituições de ensino fazem ideologias que consideram válidas. Nesse sentido, não é surpresa que tenham sido também essas duas disciplinas as responsáveis por validar um tipo de psicologia aplicada a naturalização e individualização do sujeito em contexto de opressão e exploração.

Função da Psicologia no Brasil

Foi por meio dessas disciplinas que a psicologia rompeu as barreiras oceânicas e chegou ao Brasil, pois exigia-se um forte aparato repressivo tanto físico quanto ideológico com a finalidade de transmitir, impor e manter as ideias impostas pela classe burguesa espoliadora a fim de em ultima instância, justificar e legitimar a exploração. Furtado (2012) esgrimiu que esse avanço dos modos burgueses em solo brasileiro, um jovem estado extremamente protetor de uma classe dona dos meios financeiros que considerava a exploração algo legítimo propiciou o avanço dos saberes psicológicos considerados científicos. Santos et col (2012) aponta a psicologia como um saber chamado para auxiliar a solucionar problemas ligados á saúde, educação e organização do trabalho, por isso, foi amplamente associadas à medicina e a educação. Foi assim que a psicologia brasileira chegou como um instrumento não de transformação, mas de dominação que tinha como objetivo sumo dominar a possível rebeldia de uma população descontente com o processo de urbanização que não oferecia nenhum beneficio ou regalia a maioria pobre. O patriciado precisava de um saber cientifico que legitimasse a exploração e coube ao pensamento cientifico resolver essa questão implantando a psicologia no cotidiano das pessoas.

A psicologia europeia foi o saber cientifico que se mostrou capaz de aplanar os ânimos da população oprimida e naturalizar a exploração da população elitizada. O maior desafio da psicologia no Brasil talvez tenha sido desenvolver práticas efetivamente capazes de auxiliar no controle da conduta humana. Esse saber genuinamente europeu chegou como uma excelente ferramenta, pois tinha em sua gênese a capacidade de imputar à individualidade do sujeito as responsabilidades pela sua frágil condição de oprimido e explicar concomitantemente as desigualdades e a exploração de uma classe sobre a outra, a divisão social do trabalho e a especialização do conhecimento, portanto, era de se esperar o surgimento de teses focadas na higienização e no controle social, além da normatização defendendo evidentemente o interesse das classes dominantes.

Por esses fatores a evolução profícua dos saberes psicológicos europeus em solo brasileiro difundiu-se tão rapidamente que se ampliaram demasiadamente as perspectivas teóricas com foco interventivo. Antunes (2012) enfatizou que esse notado crescimento dos saberes psicológicos no Brasil tão rapidamente revelam claramente a necessidade do controle e apontam para o descontentamento das massas dominadas pelos interesses políticos e capitais do patriciado elitista. Podemos perceber que foi nessas condições que os saberes psicológicos se firmaram, a psicologia veio ao Brasil inicialmente buscar respostas para resolver problemas sociais defendendo interesses dos dominadores fundamentando-se nos saberes tradicionais da psicologia e posteriormente implantando novas modalidades de domínio. Em outros termos, os saberes psi não vieram ao país com interesse de se preocupar com a maioria da população, mas visando transformar a sociedade cada vez mais em beneficio do patriciado explorador que se enraizava fortemente no solo fértil de riquezas verde e amarelo. Segundo Lane, (1984) a psicologia chegou ao Brasil e se mantém reproduzindo as condições para estagnar a emergência das transformações sociais. Lane (ibid) defendeu que a psicologia poderia analisar as relações dos grupos enquanto medidas institucionais e propõe que essa disciplina exerça a posição de mediador entre ideologias nas atribuições de papéis sociais e representações oriundas das atividades que a sociedade caracteriza como “adequada” correta ou esperada. Porém, os saberes psi não realizam tal atividade, mas se colocam em posição distinta, pois trata, difunde e defende a posição neutra da ciência e a coloca como uma saber acima de qualquer interesse. É claro e óbvio que não há conhecimento sem interesses, sem intenções, pois a medida que é necessário justificá-lo, o saber deixa de ser puro em sua gênese. Lane (ibid) argumentou que não há pesquisas que não interfira na existência dos pesquisadores e pesquisados, pois ambos se definem por relações sociais sejam elas reprodutoras ou transformadoras.

A ciência nunca foi neutra, nunca foi ingênua ou bondosa, mas sempre se desenvolveu fundamentada por uma necessidade e interesses particulares. Leite (2012) disse que conceber a ciências desse ponto de vista é pura ingenuidade do pesquisador ou má formação. “Conceber a ciência como imparcial ou boazinha é ‘balela’; a ciência nunca foi boazinha e esse argumento que ouvimos nas escolas e nas universidades de que os pesquisadores amam a ciência e por isso pesquisam é ‘conversinha’ ou muita ingenuidade romanceada”. (Leite, 2012, Proferido na palestra: A importância da pesquisa cientifica na graduação, apresentada na 2ª Mostra Nacional de Práticas Psicológicas.). Sandoval (2002) argumentou que a ciência nunca foi neutra e que a psicologia tem sido apenas uma cópia mal feita das ciências do mundo industrializado que se auto percebe como mundo desenvolvido, Sandoval (ibid) defendeu que o saber não é importado por sua relevância, mas pelo modismo do consumo imposto pela cultura que coloca o saber estrangeiro como superior. Percebemos nessa colocação o assimilacionismo europeu e americano a qual as nações dos países menos desenvolvidos são impelidas a experimentar.

A Quem a Psicologia Serve

Notadamente comandada pela elite brasileira o predomínio da ciência do controle não impediram totalmente o penetração de ideias igualitárias no país. Vilela (2012) argumentou que Napoleão propiciou que essas ideias chegassem ao Brasil, pois com a expulsão da elite portuguesa de sua sede o Brasil ficou repleto de uma classe alta e média intelectualizada que não permaneceria assim como os oprimidos satisfeitos com a ausência de regalias em seu novo lar. Podemos argumentar que modernamente a ausência de condições educacionais de qualidade no país e a desconfiança com os planos governamentais no tocante a educação criou um mal estar entre as elites que responderam rapidamente enviando seus filhos para estudos fora do Brasil. Tempos foram passando e as ideias dos intelectuais que tiveram contato com as propostas iluministas napoleônicas foram cada vez mais implantando criticas ao estado das coisas no Brasil e como argumentou Furtado (ibid) o Brasil obrigou-se a instituir uma mudança radical das políticas de exploração que antes era de patriciado para políticas de nativos elitistas eliminando assim o quadro de precariedade absoluta que predominara no Brasil colônia até primeira república velha. Furtado (ibid) defendeu que com a mudança do quadro de precariedade absoluta os portugueses solucionaram vários impasses, pois na medida em que propiciava certos benefícios aos pobres, desenvolviam seus centros urbanísticos e davam condições da população carente ser ainda mais explorada, mas agora de modo legitimo. Furtado (ibid) argumentou que foi nesse cenário predatório que a psicologia se desenvolveu como profissão elitista, prestando serviço a poucos e se mostrando repleta de interesses corporativos proporcionado pelas novas relações exacerbou o individualismo presente no estilo de vida das pessoas de cada nativo. A psicologia se mostrou capaz de resolver os problemas da classe dominante de modo bastante eficaz e por isso uma das estratégias foi a disseminação do saber. Essa disseminação foi uma estratégia muito explorada mais recentemente pelas ditaduras militares a qual o país foi submetido arbitrariamente.

Consolidação e Difusão dos Saberes Psicológicos

Antunes (2012) argumentou que as políticas de educação militares promoveu abertura do ensino no país dando margem à iniciativa privada de baixo nível que na verdade reprimia indiretamente os movimentos organizados estudantis do que facilitava a oposição, apontou que a proliferação do ensino privatizado mercantilista de má qualidade é em suma uma estratégia eficiente de dominação do que propriamente uma prática beneficente em favor da população brasileira carente de educação. Furtado (2012) defendeu que esse avanço não foi pensando no bem estar da maioria excluída ou carente, mas um meio de formar trabalhadores capazes de pagar e de consumir os serviços oferecidos pela elite burguesa, além de um método eficiente de controle. Explicou que disseminando uma educação de pouca qualidade a elite brasileira poderia manter seu notório status que os aproximava da aristocracia europeia e simultaneamente separava-se da população feia e suja do lugar chamado Brasil.

Com a disseminação da educação formou-se mão de obra mais especializada e assim permitiu-se o surgimento de ocupações que serviria para manter um Brasil autônomo e com mercado aquecido cujo seus integrantes passariam a ter destaque consolidando assim o status de trabalhador que se mantém até hoje. Vilela (2012) defendeu que mais recentemente nos governos Vargas e Kubitscheck acentuaram-se as desigualdades por conta da rápida evolução urbanística brasileira e no tocante a educação, foi no período desses administradores que surgiram os primeiros cursos de especialização em psicologia, sendo nesse terreno que a atuação dos psicologistas não mais sob os auspícios da educação, mas sob a ordenança das organizações atuando explicitamente nas seleções, orientações de profissionais, bancos, nas escolas e clínicas que a psicologia disseminou-se ainda mais. Antunes (2012) explicou que nesse novo cenário os novos conhecimentos e práticas psicológicas usaram as diversas esferas sociais para disseminar o conformismo subjacente as necessidades industriais.

Rebeldia do Saber

Só agora a psicologia começa a colocar em cheque os saberes importados e aponta que o saber cientifico não é tão neutro, além de mostrar claramente que o saber psicológico veio ao Brasil não para transformar, mas para reprimir o descontentamento de um povo que emergiu sob árduo regime de exploração e espoliação. Portanto inicia-se uma nova fase contra a psicologia e as pesquisas convencionais que são de fato saberes coloniais. Percebeu-se que a psicologia que se diz neutra, imparcial e não tendenciosa nada mais é que: “uma arte moldada por homens e mulheres que respondiam as chamadas de seus mundos reais”. (Sandoval, 2002, p. 105). Assim rompeu-se o cordão umbilical colonial penetrando em mundos antes jamais explorados como os dos conhecimentos excluídos do povo brasileiro.

Psicologia Comunitária é a Solução

Lima (2012) argumentou que na década de 60 surgiu na psicologia brasileira começou-se a questionar conceitos teóricos e metodológicos e buscava-se por relevância social com objetivo de transformar a sociedade em um lugar melhor. Segundo Lima (ibid) dessa nova tendência surgiu à psicologia comunitária, voltada para integração social, mas a partir de uma revisão critica, conduziu a um referencial marxista consolidando-se como uma prática não elitista que visava transformação social, política e econômica de uma população alijada dos processos democráticos onde a comunidade faz parte de uma reflexão critica do papel social das ciências e do paradigma da neutralidade cientifica. Toda via, Lima (ibid) esclareceu os apontamentos de Souza (1985). Segundo Souza (1985 apud Lima 2012) a psicologia comunitária teria enfático interesse em ampliar o mercado da psicologia que encontrava-se já naquela época saturado pela formação exacerbada de psicólogos, especificamente de profissionais que debruçavam-se sobre as clínicas. Segundo Souza (1985 apud Lima 2012) os psicólogos buscavam ampliar seu leque de atuação e por isso saiam de seus consultórios e iam atuar em lugares sociais, portanto não havia tanta identificação com o trabalho comunitário, mas um possível jogo de interesse capital.

Portanto, a psicologia comunitária também não era uma maneira totalmente focada na transformação social, embora suas práticas tenham dado inicio a uma neopercepção das práticas psicológicas com certa relevância social, sua identificação não estava diretamente ligada as mudanças sociais, mas a necessidade de ampliação do campo de atuação em busca de ganhos financeiros por parte dos profissionais.

Considerações Finais

Ao passar pelos diferentes períodos da história da psicologia no Brasil pretendemos argumentar, a partir de algumas situações que a psicologia chegou ao Brasil com uma finalidade bem especifica onde notadamente cumpriu brava e ferozmente o dever a qual se propunha que era tentar controlar o comportamento humano de modo a legitimar e naturalizar práticas que garantissem o status e os bens da classe dominante. É possível percebe que as práticas foram hegemonicamente em benefício do patriciado e da elite abdicando quase totalmente da população brasileira carente. Como visto os saberes psicológicos vieram ao país para naturalizar o que não é natural, para legitimar a divisão de classes e para sustentar a exploração e a espoliação e não para transformar, conscientizar e modificar.

Sandoval (2002) esgrimiu que a psicologia ao invés de atuar focada na manutenção dos status quo e na reprodução do modelo social importado, poderia desenvolver práticas fundamentadas por teorias culminando assim em transformações sociais de modo sistematizado com rigor teórico, prático e epistemológico para possibilitar a competição em pé de igualdade com os modelos importados das sociedades industrializadas e tivessem como produto a inovação metodológica compatível com o Brasil e a serviço do desenvolvimento humano e modificação social, sem deixar de levar em conta o contexto, além de construir teorias paradigmáticas que tenham função efetivamente interventiva aplicada onde aplicação mostre sua vitalidade.

Nesse sentido, implicamos a necessidade de estudos voltados a uma psicologia da verdade que mostre o que as ideologias escondem, esse saber psi não individualiza ou naturaliza o individuo humano, mas o vê em toda sua plenitude. A psicologia da verdade é aquela cuja investigação não centra-se na convencional observação dos modos como se acessa a individualidade humana seja ela psíquica ou comportamental, mas é aquele saber cujo centra-se no estudo da subjetividade em si entendendo seus determinantes e ao necessariamente como acessá-los.

A psicologia da verdade é o saber psicológico focado não no ego fragilizado, no self desestruturado ou no comportamento desajustado, mas centrado na gênese da problemática que está alicerçada nas condições de vida das pessoas apontando os caminhos para superação dessas condições para que se apoiando nela o sujeito possa ser dono do seu próprio destino. A psicologia que trabalha em favor da verdade é aquela que argumenta que suas leis são relacionadas às leis da sociedade, é o saber que mostra claramente que adapta o homem não para sua felicidade ou para seu bem, mas para o bem da sociedade. A psicologia da verdade luta para o desenvolvimento de uma cultura sustentada pela felicidade e liberdade individual e não pelo beneficio daquilo que é considerado saudável pela sociedade.

A psicologia apenas dará os primeiros passos em favor do beneficio cultural quando assumir que sua função é apontar que o individuo não é obrigado a conviver com condições de precariedade, exploração e espoliação, mas quando mostrar claramente que a gênese do sofrimento está nos conflitos sociais, além de permitir que esses conflitos sejam vistos e a partir disso propor melhores práticas societárias.

Na medida em que a psicologia seja ela de qualquer referencial oculte a gênese do sofrimento e substitua por outro, é ideológica pura e não verdadeira. Na medida em que impede o homem de ser seu próprio senhor não é um saber que se alicerça no desenvolvimento, mas na verdade estagna seu avanço e limita a humanidade. Na medida em que atua dessa forma, não sistematiza o conhecimento, mas colabora com a promoção da alienação.

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