Obra original de Peter L.Berger e Thomas Luckmann.
Berger & Luckmann (1967) escreveram sobre como se dá a construção social da identidade, entretanto, para tal abordou a realidade, explicando que existem diversas concepções do termo, mas especificamente a realidade do senso comum é influenciada pelo mercado de idéias.
Os autores mostraram o que constitui a realidade cotidiana do mundo, segundo eles, para entendermos a realidade da vida cotidiana é necessário termos ciência de que a filosofia é inerente a essa construção. Para eles o mundo da vida cotidiana não é apenas uma garantia dada pelos membros da sociedade, mas surgem de aspectos particulares como pensamentos e ações.
Berger & Luckmann (1967) entenderam que a melhor técnica para atender a natureza dessa realidade é a fenomenologia, já que essa se constitui como uma técnica descritiva empírica, mas não cientifica do ponto de vista de ciência empírica, ou seja, como a ciência está a mercê do capital, os autores propõem que seja outro método que atue na descrição desse fenômeno.
O senso comum tem diversas interpretações sobre a realidade cotidiana, sobre os objetos que se apresentam a consciência como sendo de diferentes esferas da realidade.
Segundo os autores a realidade se forma a partir da relação com outro, mas o sentido de realidade a qual os autores se atém, são de coisas corpóreas ou materiais (objetiva), ou seja, eu chamamos de realidade objetiva as coisas que sabemos que existem porque são corpóreas. (corpóreas no sentido de possuir significado que necessariamente não são físicos).
Por exemplo, devemos ter em mente como saber reconhecer seus semelhantes que se deparam na vida diária e ciencia sobre os desencarnados que aparecem em meus sonhos. Não podemos dizer que aquele sujeito que morreu e apareceu no meu sonho é real, mas podemos dizer que ele já foi real em algum momento e que ele ainda está em nossa realidade por meio da lembrança.
Logo, devemos entender o mundo como tendo múltiplas realidades, porém, dentro dessas realidades a mais importante é aquela da vida cotidiana e essa é a predominante porque a experimentamos todos os dias.
Por exemplo, (eu pego um ônibus todos os dias, nesse ônibus vejo as mesmas pessoas, desço do ônibus e para e uma padaria e sou atendido pelo balconista.) Esses objetos fazem parte da minha realidade, porém, se eu me atrasar essa realidade muda, as pessoas do ônibus não serão as mesmas, o balconista não será o mesmo e etc.
Ou seja, diante da minha realidade há uma serie de outras realidades que existem independentes da minha. Enquanto eu estou surfando no litoral, há um tsunami no Japão.

Estendendo a realidade da vida diária como sendo ordenada em padrões que são independentes, ela aparece ordenada por objetos que já estão lá antes da nossa entrada em cena, por exemplo, o ônibus que pegamos diariamente está lá independente de nós , ele vai passar, as pessoas vão trabalha e etc. A realidade está organizada em torno do aqui, do ‘meu’ corpo e do “agora”, esse é o foco da ‘minha’ atenção.
A realidade é muito grandiosa e por isso as pessoas a recortam, ou seja, tiram um pedaço para si para que seja possível viver nela.
Os autores dizem que as coisas ganham significados por meio da linguagem, a linguagem delimita as coordenadas da nossa vida e enche os objetos de significados.
A realidade é uma construção de uma cadeia de sintetizantes que surgem da idéia de alguém. A realidade é uma construção material da idéia de alguém.

Por exemplo, alguém imaginou um carro, fez com que isso saísse da mente e materializou, e a partir dessa materialização, ‘eu’ posso afirmar que o carro existe objetivamente por que eu posso senti-lo empiricamente.

A realidade cotidiana é controlada por variáveis que são tempo e espaço e isso mostra que a vida cotidiana é abandonada por diversos graus de proximidade de objetos.
Ela muda de acordo com tempo e espaço, o que era ontem amanha será outra coisa por conta dessas variáveis. A realidade mais próxima é aquela cuja ‘meu’ corpo está invólucro, pois essa zona contém o mundo do meu alcance, essa realidade é a que eu posso modificar. Nesse mundo ‘minha’ mente é dotada de pragmatismo, sendo que não tem interesse pragmático por zonas mais distantes, pois ‘sei’ que talvez durante toda minha vida não possa me ocupar com essas zonas.

O autor esta falando nesse trecho acima que o ser humano apenas se interessa pela realidade útil a ele, pois sabe que muito provavelmente não poderá viver a realidade como um todo, por exemplo: Estou agora na faculdade, está frio e estou assistindo uma aula chata e lá em Boituva tem o centro nacional de pára-quedismo, está um dia ensolarado; Eu posso viver a realidade de agora de estar na sala, não é possível estar lá em Boituva nesse momento, então vou me interessar pela aula, pois é o que estou vivendo agora.
Se ampliarmos esse exemplo, podemos dizer que se sou muito pobre, jamais poderei ir a Suíça, portanto vou viver a minha realidade pobre.
A realidade surge da relação com o outro, é impossível construir minha realidade sem ter contato com os outros, deve-se saber que esses outros têm uma referencia da realidade diferente da minha, pois o meu “aqui é lá para ele”, mas de qualquer modo sei que vivo com eles em um mundo comum repleto de significados.
A realidade cotidiana é sempre partilhada e o mundo mais coerente é a interação que ocorre frente a frente, lembre-se que a realidade objetiva esta muito ligada com o corpóreo que envolve meu corpo, pois nesse contexto há uma realidade que podemos modificar.

Nas situações frente a frente o outro é aprendido por mim, sendo que há uma interação, intercambio de expressividade, “vejo e interajo por sorrisos, diálogos e reciprocidade dessas expressões.
Obviamente o outro pode ser real sem estar frente a frente, entretanto ele só é real de modo não tangível e subjetivo, só que a subjetividade é particular e apenas eu conheço a minha completamente.
Aqui é onde se encontra a sacada do autor, pois ele diz haver a realidade e a realidade objetiva, a realidade objetiva é mais ligada ao corpóreo, sendo que a realidade pode ser composta por um fator subjetivo não tangível, mas mesmo não sendo tangível faz parte da minha realidade objetiva de modo subjetivo.
Segundo o autor, a subjetividade do outro, eu só tenho acesso por meio de um numero de indicadores corporais ou descritivos e até mesmo por meio de objetos que representam a representação da subjetividade do outro.
Por exemplo, se eu vejo um sorriso, percebo que o outro esta feliz, a felicidade é algo subjetivo, se vejo lagrimas percebo uma outra subjetividade do outro.
Ou se eu vejo no escritório de um advogado uma cadeira super confortável, imagino que esse advogado goste de conforto, sei disso por meio dos indicadores.
Sendo assim, sempre estou rodeado de objetos que indicam as subjetividades dos outros mesmo quando não os conheço bem ou se nunca tive contato com eles.
Pois todo e qualquer objeto é dotado de marcos da produção humana.
SOCIEDADE E REALIDADE OBJETIVA
O organismo humano ainda esta se desenvolvendo e já começa a ter contato com o ambiente.
Mesmo na barriga da mãe o sujeito já vai tendo contato com um ambiente na qual entrará.
Segundo o autor o ser humano se relaciona com o ambiente natural, mas também com uma ordem cultural e social especifico na qual já está feita antes dele chegar.
O organismo humano mesmo com limites fisiológicos manifesta uma imensa plasticidade nas suas respostas às forças ambientais que atuam sobre eles.
Aqui o autor fala da plasticidade do homem, o homem tem sua natureza, mas também a constrói e ainda se produz a si mesmo.
Um exemplo da plasticidade do homem é o concernente a sexualidade.
O período em que o organismo do homem se desenvolve é também o período durante o qual o humano se desenvolve, esses são aspectos sociais que determinam o humano dono do eu.
Por exemplo, O que faz do homem dono dele mesmo é a capacidade de plasticidade (adaptação) que ele tem, ele quando nasce é envolvido em um contexto social que já existe repleto de valores e mesmo assim ele dá sua contribuição.
SURGIMENTO DA INSTITUCIONALIZAÇÃO
O controle social primário é dado pela existência de uma intuição, algo é institucionalizado quando é submetido ao controle social.
“Institucionalização” é um conceito, um valor impregnado com o objetivo de controlar, e se a institucionalização não for bem engendrada ela precisa de mecanismos adicionais que chamamos de “LEI SANÇÃO”.
Portanto institucionalizar é fazer algo tornar-se habito em determinada cultura cujo damos o nome de típico.
Presume-se que ações do tipo X sejam realizadas por sujeitos do tipo X.
Deve-se saber que o caráter controlador é algo puro da institucionalização.
As tipificações são expressas em padrões específicos de consultas.
Exemplos: formamos um conceito sobre como algo deve ser e inserimos em um tipo para depois ficar mais fácil consultar como deve ser.
Esse exemplo acima é chamado no livro de processo tipificador.
O processo tipificador é o mediador entre idéia e cotidiano.
É como se esse processo fosse um banco de dados onde armazeno as idéias de como as coisas são concretamente falando.
Tipifiquei que o ônibus passa as 7 da manha, se ele não passar eu posso afirmar que ele está atrasado pois deveria passar as 7.
O ganho que isso trás é que cada individuo pode prever ações do outro.
Esse controle é muito interessante quando se vê a divisão de trabalho, pois o livra da tensão, poupa tempo e esforço nas tarefas em que estejam empenhados.
Isso significa que os envolvidos estão construindo um fundo no sentido acima expostos que servirá para estabilizar suas ações juntas e separadas.
Para que ocorra a tipificação recíproca que descrevemos é preciso que haja uma situação social continuada, na qual as ações habituadas sem entrelaçam.
Segundo o autor a sociedade é um produto humano, a realidade é uma realidade objetiva e o homem é um produto social.
Ao mesmo tempo o mundo institucional exige legitimação, isto é, modos pelos quais pode ser explicado que o homem é um produto social.
Esta realidade chega à nova geração por meio da tradição.
Ou seja, somos colocados no meio dessa realidade, nós não temos a opção de não entrar nela.
Não estamos afirmando que há pré determinismo, ou seja, que as coisas vão acontecer assim ou assado independente da minha vontade, o que está sendo colocado é que o sujeito já nasce numa realidade institucionalizada com tipificações que dizem como as coisas devem ser.

O desenvolvimento dos mecanismos de controle torna-se necessário caso haja desvios de curso de ação institucionalizada.
A nova geração levanta o problema de obediência e a sua socialização dentro da ordem exige o estabelecimento de sanções.
SEDIMENTAÇÃO E TRADIÇÕES
Ocorre quando vários indivíduos compartilham de uma biografia em comum.
A linguagem é o repositório de agregados de sedimentação coletivo que podem ser adquiridas por meio de acontecimentos, ou seja, como totalidades coesas.
Exemplo disso é a pobreza que forma grupos coesos.
PAPEIS
A tipificação exige que tenha um sentido objetivo que a identifique a ação do sujeito na realidade, ou seja, um vocábulo que se refira à ação.
Então, diz-se que o sujeito esta em um papel na qual atua na realidade, essa atuação dependerá de qual realidade esta vivendo, lembre-se que no inicio do resumo afirmei que a realidade tem múltiplas facetas e que o ser humano apenas se ocupa da realidade pragmática.
UNIVERSO SIMBOLICO
Legitimação é o processo de definir o significado de segunda ordem, ou seja, produzir novos significados que servem para integrar os significados já ligados aos processos de institucionalização, e o que motiva os legitimadores é a integração.
Integração consistem em possuir mais de um papel e que cada um desses papeis fazem parte de uma respectiva institucionalização.
Exemplo: Quando um sujeito é pai e comandante militar do filho.
Há níveis de institucionalização: o nível analítico e o nível das teorias rudimentar, nível analítico é aquele que é transmitido em nível de lingüística humana, exemplo: parentesco, e rudimentar é presente adágios, máximas morais, provérbios.
Terceiro nível contem teorias que explicam como os setores da institucionalização é legitimado em termos de corpos diferenciados de conhecimentos, que se refere a condutas que possivelmente são transmitidas por meio de iniciações.
Esta tradição é ministrada pelos velhos clãs, na qual os anciões iniciam os adolescentes.
O universo simbólico é concebido como a matriz de todos os significados sociais e reais.
A cristalização dos universos simbólicos acompanha os processos de sedimentação e acumulação de conhecimentos, os universos simbólicos são produtos sociais com historia.
O universo simbólico proporciona a ordem para a apreensão subjetiva da experiência biográfica que pertencem a diferentes esferas da realidade e que são impregnados no mesmo abrangente universo de significação.
Interiorização da realidade
Estar em sociedade significa participar da dialética sociedade, porem, o individuo não nasce como humano, mas se torna.
O ponto inicial desse processo é a interiorização.
Interpretação imediata de um acontecimento, ou seja, manifestação dos processos subjetivos do outro que faz sentido para mim.
Interiorização é a compreensão dos nossos semelhantes e a percepção do mundo segundo uma visão significativa e social.
Ter a sacada de que as relações é que formam o sujeito social e perceber, entender como as relações se dão olhar um acontecimento e saber o que esta acontecendo por meio dos significados que a linguagem trás.
Depois de ter alcançado essa capacidade é que o individuo se torna membro da sociedade e inicia o processo de socialização.
Ou seja, a subjetividade nasce da interiorização e a interiorização se dá a partir da relação com o outro, o inicio dessa relação acontece na socialização primaria. Veja abaixo o que é socialização primaria.
Há dois tipos de socialização.
Primaria e secundaria.
Primaria é a primeira que o individuo experimenta na infância em virtude da qual se torna membro da sociedade.
Secundaria é qualquer processo que introduz o sujeito socializado em novos setores da sociedade.
Obviamente a socialização primaria é mais importante para individuo, pois ela é a base da socialização secundaria que se concentra na primaria.
Cada individuo nasce em uma estrutura social e dentro dela se encontra outros significados que são impostos.
As crianças das classes baixas, por exemplo, absorvem uma perspectiva de classes social baixa a respeito do mundo social.
Socialização é mais que aprendizagem cognitiva, mas há situações de emoção.
A interiorização só se realiza na medida da identificação, a criança assume os papeis e atitudes e interiorizamos como seus.
A socialização primaria cria na cabeça da criança uma abstração progressiva dos papeis e atitudes dos outros, especificamente os papeis e atitudes em geral.
Na socialização primaria é onde se constrói o primeiro mundo do individuo.
A socialização primaria implica nas seqüências de aprendizagem definidas ao nível social.
A interiorização secundaria é a interiorização de submundos institucionais ou baseados em instituições.
O caráter dessa socialização depende do estatuto do corpo de conhecimentos em questão de nível simbólico.
Na socialização secundaria as limitações biológicas são menos importantes nas seqüências de aprendizagem, enquanto a socialização primaria de identificação a secundaria dispersa.
INTERIORIZAÇÃO E ESTRURA SOCIAL
A socialização acontece sempre em meio a contextualização de uma estrutura social especifica.
Isso porque é na socialização que se absorve valores básicos, logo se analisarmos sócio-psicologicamente fenômenos de interiorização devemos sempre observar aspectos estruturais da sociedade em volta que faz parte da tal contextualização.
O autor não faz analise examinatoria entre as relações empíricas e o conteúdo da socialização e entre as configurações estruturais, mas sim algumas observações que refletem na socialização bem sucedida.
Socialização bem sucedida é a que ocorre estabelecimento de simetria entre as realidades objetiva e subjetiva a mal sucedida é a que corre em sentido oposto.
O autor explica que é impossível haver uma socialização perfeita, e no mínimo raro que aconteça socialização mal sucedida.
O máximo sucesso na socialização verifica-se provavelmente em sociedades muito simples nas relações de trabalho e mínima divisão de conhecimento.
Aqui o autor dá a entender que quando o nível intelectual e sócio-econômico é igualitário tanto para mais quanto para menos a socialização é mais frutífera, entendo que nessas condições a socialização produz identidades que são previamente definidas e delineadas, já que á uma simetria de conteúdos e econômico, assim, por questão de organização deverão ser alguns sujeitos reconhecidos como valorosos.
Uma vez que cada individuo se defronta com o mesmo programa institucional para sua vida na sociedade a força total da ordem institucional é levada a pesar de modo mais ou menos igual sobre cada individuo, fazendo que haja entre esse certo grau de companheirismo.
Entendo que nesse tipo de sociedade todos vão se conhecer pela figura que representam, ou seja, um nobre será um nobre e um camponês será um camponês, independentemente dos valores de suas figuras ambos vão ter os mesmos pesos e conhecimentos sobre as costas.
Resumindo, o que o autor aponta é que nesse tipo de sociedade o individuo não é somente aquilo que supõem que seja, mas é tal de maneira unificada e não estratificada.
A socialização mal sucedida acontece apenas se houver acidentes biográfico, biológicos ou sociológicos, pois assim no momento da socialização primaria ou secundária o sujeito sofre com as deformações que vão gerar estigmas sociais, aleijado, bastardo, pobre…
Nesse tipo de sociedade os sujeitos não tem defesa contra os infortúnio estigmas que lhe são atribuídos.
Isso faz que tenham atitudes cheias de ressentimentos ou raiva, para consigo mesmo e para com os outros.
Essa situação é perigosa porque desse tipo de sociedade poderão vir a ser institucionalizados processos próprios de socialização.
Ex: Anões e filhos de anões de tanto sofrerem com estigmas podem formar sua própria comunidade exclusiva sendo assim separatistas, e esse separatismo poder conceber preconceitos entre comunidades.
A distribuição mais complexa de uma socialização imperfeita pode fazer confusão na absorvição de valores entre os indivíduos, e isto pode acontecer de diversos modos, pode haver situações em que todos os outros significados da socialização sirvam de mediadores entre a realidade incomum dos sujeitos.
“somos iguais e diferentes dos outros vamos nos separar deles”
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1999. Texto original de 1967.

Autor: Harley Pacheco de Sousa

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