A intersubjetividade trans-subjetiva

É a experiência de um solo de acolhimento e sustentação, em que a alteridade emerge como constituinte das experiências subjetivas, mas não por oposição e confronto, e sim por seu caráter de inclusão primordial. Trata-se, é evidente, de uma modalidade pré-subjetiva de existência. A possibilidade do conhecimento do outro está na consciência de que deva ser antes de tudo deve-se ter consciência de si.

A primeira coisa que percebemos de fato ao nosso redor são expressões, poderemos conhecê-lo e reconhecê-lo por meio de suas expressões manifestas, que nos fazem um com ele, em um campo inaugural de indiferenciação primitiva. Caracterizaria uma prévia compreensão do mundo em que somos lançados sem escolha, e que é sempre constitutiva de nossas diferentes experiências subjetivas e de nossas possibilidades de interpretação dos entes que nos vêm ao encontro.

É um campo de possibilidades que cria e delimita as condições de nossa experiência e o horizonte de nossos atos. Certa alteridade é presença constitutiva das subjetividades na medida em que a tradição que nos precede e nos envolve deva ser compreendida como aquilo que não sendo eu faz com que eu possa vir a ser o que sou.

A noção de carne, melhor que qualquer outra por sua radicalidade, traz em si a mútua constituição das polaridades em um campo existencial, que é aquele da permanente reversibilidade possível entre um corpo que toca outro corpo e é por ele tocado. Merleau-Ponty não supõe um mundo onde distâncias não existem. Não há a defesa de uma pura indiferenciação que nos remeteria à concepção da grande unidade originária, na forma do uno primordial, de onde tudo nasce e para onde tudo volta. Se ver é tocar à distância, se busco com meu corpo tocar e ser tocado, é porque a distância existe, a diferença é um fato. No entanto, o que pode tornar o ver e o tocar significativos e carregados de sentidos é a simultaneidade de diferenciação e indiferenciação, esta como presença do mesmo “elemento” (carne) no corpo e no mundo.

A intersubjetividade traumática:

Há nessa matriz a constante referência à irrupção da alteridade, ou melhor, a da alteridade como irrupção e acontecimento traumatizante. o outro concreto e singular me precede e me traumatiza, e com isso me constitui. A cada momento de emergência do outro, algo não poderá ser simplesmente assimilável ao campo do já sabido e já disponível para o uso e o controle. O outro é de fato concebido como uma radical alteridade, que não deve ser concebido nem abordado a partir de uma experiência que se caracterize como uma assimilação daquilo que a princípio já se oferece como assimilável. Uma relação intersubjetiva implica, necessariamente, em certo deslocamento, em uma certa cisão ou modificação na experiência subjetiva, seja em sua constituição primeira, seja em subjetividades já constituídas, mas em processo de reconstituição, como ocorre, por exemplo, em uma psicanálise. A alteridade, nessa dimensão, é traumática porque produz fraturas e exige trabalho em processos permanentes de inadaptação entre eu e outro.

A intersubjetividade interpessoal:

É o campo em que gestos dirigidos a outros – atos parciais que os outros devem receber e a que devem responder, sendo o gesto uma ação incompleta que os outros completam e cujo sentido só se constrói e define na própria interação – estão na base do que vem a se constituir como significado compartilhado, como mente (consciência) e como self. Ninguém pode ter acesso a si e à sua consciência, mais ainda, ninguém pode se dotar de um mim e de uma consciência senão pela mediação do outro e de suas respostas.

A “intersubjetividade” intrapsíquica:

Esta dimensão intersubjetiva refere-se, fundamentalmente, ao plano das instâncias do psiquismo (Id, Ego e Superego), ao dos objetos internos e, de modo geral, ao que em psicanálise denomina-se como o modo objectrelating de funcionamento psíquico. Ou seja, na teorização psicanalítica é possível conceber uma dimensão da experiência intersubjetiva em que a presença de objetos (no caso, outros sujeitos, ou ao menos partes deles) não precisa se dar efetivamente na realidade externa para que tenha efeito e produza conseqüências em termos psíquicos. Encontram-se nessa matriz os fundamentos para a compreensão das grandes cisões (como, por exemplo, aquelas entre corpo e mente, razão e paixão, vontade e impulso) e também as personificações das forças ou faculdades psíquicas.

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